Esta foi uma oficina “três em um”. Primeiro, conversamos sobre as distorções conceituais normalmente encontradas em matérias jornalísticas sobre ciência. O ponto de partida foi uma matéria publicada pelo portal UOL sobre a passagem do cometa Lulin, que tinha como título “Passagem de cometa na segunda influencia até a crise, dizem astrólogos “. No mesmo período, o Jornal da Cidade de Bauru colocou na capa o título “Outono mais quente chega hoje muda ano astrológico”. Uma discussão rápida acusou os jornalistas de serem ignorantes e descuidados. Aí, começamos a segunda parte.
Neste momento, um fato interessante veio à tona: até mesmo quem tem sólida mentalidade científica no campo das ciências exatas acaba usando senso comum quando tem de refletir sobre um problema de outra área pouco familiar (as ciências sociais aplicadas, neste caso). Assim, partimos para uma análise mais fundamentada do fenômeno das distorções na mídia. E nosso modelo teórico foi a teoria do enquadramento.
Foram selecionados trechos do artigo “Enquadramento e Metodologia de Crítica de Mídia“, que mostra como muito das distorções é resultado não de ações mal intencionadas, mas de processos institucionalizados de produção, muitas vezes praticados sem consciência. Genericamente falando, o valor do que é ou não notícia, a formatação para editorias específicas, o estilo de redação típico do jornalismo são os procedimentos responsáveis.
Depois, foram analisados os enquadramentos mais típicos na cobertura política, segundo pesquisas na área:
ENQUADRAMENTO ESTRATÉGICO: reportagens que põem em destaque as ações calculadas pelos políticos para conquistar determinados objetivos, geralmente descritos como escusos;
ENQUADRAMENTO EPISÓDICO: matérias que enfatizam mais detalhes pitorescos, trocas de acusações, gafes ao invés das razões propriamente políticas de um fato como o lançamento de uma política pública, a concretização de uma ação etc.
ENQUADRAMENTO DE CONFLITO: disputas internas, bate-bocas e tudo o mais que dê mais ênfase à briga do que ao processo político como ele é ganham mais destaque nas páginas dos jornais.
ENQUADRAMENTO DE JOGO OU “CORRIDA DE CAVALOS”: muito comum em época de eleição, quando os jornais dão mais ênfase ao resultado de pesquisas – e às estratégias de cada candidato para manter o mudar o cenário – do que aos projetos políticos em jogo.
Refletimos então que se a produção de notícias segue padrões a ponto de haver tais categorias analíticas, então é porque se trata de um problema que vai além da intenção pessoal de cada jornalista. Estava delineada uma explicação mais consistente para o fenômeno das distorções.
A prática alternativa aos enquadramentos de conflito ou episódico é o que os cientistas da comunicação chamam de “enquadramento temático”, que também é praticado por jornais, revistas, programas de televisão, mas em escala bem menor. Enquadramentos temáticos são justamente aqueles que relacionam um fato específico ao contexto que o gerou, equaliza as forças em jogo, consideram as perspectivas de todas as pessoas afetadas etc.
Estudamos, então, os enquadramentos das duas matérias que compunham o título do Jornal da Cidade, usando o software de mapeamento Compendium, da Open University. Essa foi a terceira parte da oficina. Os alunos navegaram pelo mapa, ao mesmo tempo em que foram aprendendo a usar as ferramentas para criar mapas argumentativos.
Para concluir, levamos uma seleção de matérias do jornal Folha de São Paulo sobre astronomia, publicadas entre 2007 e 2009. Vimos que os enquadramentos de conflito e episódico se repetem quando o tema são as ciências exatas, em títulos como “Inglês usou telescópio para ver a Lua antes de Galileu” ou no lide “Os astrônomos foram mais rápidos do que os biólogos e Galileu venceu Darwin dentro da Unesco”. Neste momento, o professor Adilson de Oliveira, do Departamento de Física da UFSCar e responsável pelo projeto do LAbI lembrou que, na verdade, a escolha pela comemoração dos 400 anos do telescópio foi resultado de um consenso, e que a disputa foi, na verdade, recriada pelo jornalismo…
Outros enquadramentos encontrados foram o de catástrofe – “Quando astro explodir, noite vai virar dia na Terra”, ou “Temperatura sobe 700 C em 6 horas em planeta extra-solar” – e o de mistério – “Dupla acha buracos negros siameses” ou “Telescópio vê surgimento de estrela supermagnética”, fenômeno caracterizado como “totalmente inesperado pela Física”. Neste momento, os professores Adilson Oliveira e Gustavo Rojas lembraram que observações no céu não são feitas a esmo e que, se os cientistas acharam, provavelmente era porque estavam procurando… Mas o título reforça a conotação de ineditismo e, na linguagem jornalística, é isso que importa.